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Vida e carreira: aproveitando a oportunidade da maternidade   

Por Alcione Andrade

 

Desde que sentamos pela primeira vez naquela cadeirinha da primeira série, nós mulheres, passamos a nos preparar para “o que vamos ser quando crescer.” Nossa carreira profissional passou a ser a busca desta geração que tiveram as mães lutando para entrar no mercado de trabalho e abrindo as portas para que pudéssemos ir mais longe. Passamos pela educação fundamental, ensino médio, nos dedicamos para entrar na faculdade, fizemos estágios, pós-graduação, MBA, Mestrado e Doutorado. Batalhamos durante anos, anos e anos (e foram bons anos), uma vida “inteira” para irmos mais longe e conquistarmos o mercado de trabalho. Nossa mente foi direcionada para isso e nós acreditamos. Tanto acreditamos que é o que estamos realmente fazendo. Muitos cargos importantes e papeis estratégicos das organizações são ocupados hoje por mulheres. Muitas empresas inovadoras, equipes incríveis e ações extraordinárias são lideradas por mulheres. Observamos isso acontecendo e sabemos que ainda podemos mais. E no meio dessa busca e deste vislumbramento pelo mais alto patamar profissional surge a grande pergunta: “E quando vem o bebê???”

 

Bebê? Filhos? Será que na corrida pela conquista da carreira maravilhosa e pela realização profissional, ainda tem espaço para filhos? “Será que tudo que me preparei, todos esses anos com foco na minha profissão não serão abalados ou até descartados com a chegada de um bebê?  Serão meses fora do mercado de trabalho (nesse momento nem imaginamos que pode chegar a anos). Terei que mudar todo meu ritmo, e se meu filho ficar doente, e se quebrar um braço na escola ou precisar de mim no horário comercial?”

 

Não é à toa que a cada ano estamos tendo filhos com uma idade mais avançada. A estabilidade financeira e busca pelo desenvolvimento profissional é sim a prioridade desta geração de mulheres de negócio. Agora, a pergunta é: será que a maternidade é realmente um obstáculo para nossa carreira?

Muitas mães relatam que a maternidade é sim um divisor de águas tanto em sua vida pessoal quanto em seu caminhar e desenvolvimento profissional. Mas, por incrível que possa parecer, a grande maioria delas (e a grande maioria mesmo) afirma que essa mudança foi para muito melhor. Muitas descobriram novas habilidades e incrementaram seu perfil profissional, quebraram paradigmas e melhoraram suas relações e jeitos de fazer negócio, outras reformularam suas rotinas e ritmos buscando mais equilíbrio, refletindo diretamente em sua qualidade no dia a dia do trabalho.  Outra oportunidade aproveitada é a reavaliação de valores e propósitos: existem mães que deram um giro de 180 graus em sua carreira, atingindo níveis de satisfação e realização profissional que nunca haviam imaginado.

 

Mas como? Por que isso ocorre? E se isso já é fato, por que ainda adiamos tanto a maternidade visando o crescimento profissional?

 

Vamos por partes. Primeiro é importante olhar para como atuamos no mundo e por onde caminham nossas escolhas profissionais ou pessoais. Todas nós temos necessidades, na maioria das vezes inconscientes, que buscamos atender em nossas vidas.  A Antroposofia traz uma visão interessante de 4 níveis diferentes pelos quais nos relacionamos com o mundo. O primeiro, que aparece como base para os demais, está relacionado  com as necessidades materiais. Precisamos de recursos financeiros e tangíveis para nossa sobrevivência e para viver bem aqui na Terra, nosso trabalho remunerado ou “emprego” é a principal fonte de segurança para este nível.  

 

O segundo nível trata dos ritmos, do funcionamento, das atividades que realizamos no mundo, do que gostamos e sabemos fazer. Nas empresas e no mundo dos negócios podemos dizer que são os processos, as atividades que realizamos, onde colocamos nossa dedicação diária. “O que sei fazer? O que eu gosto de fazer? Quais são minhas habilidades? O que tenho prazer em fazer?”, são perguntas que ajudam a fortalecer este nível.

 

O terceiro tem a ver com a necessidade de nos relacionarmos com outras pessoas, é o nível das  relações. Nossas emoções, nosso "jeitão" de lidar com os outros, nossas reações, os conflitos, a forma com que conversamos nos almoços de domingo ou/e de negócios fazem parte desse universo. É um nível mais invisível dentro das empresas, mas é um dos principais pilares deste universo. Quando conseguimos atender as “necessidades” deste nível, onde quer que seja, temos mais motivação, vínculos e comprometimento.

 

Por último e ainda mais sutil, entramos na necessidade de se ter um propósito, e esse é o quarto nível. É o nível do EU, do “por quê?” e do “para quê?”. É onde buscamos entender nossa missão no mundo, que traz a vontade de fazer a diferença, deixar um legado, é a necessidade de sentir que estamos fazendo a nossa parte.  

 

Quatro níveis diferentes que precisam ser atendidos de um jeito ou de outro para nos sentirmos completos. Quer tenhamos consciência disso ou não.

 

Ok, mas o que isso tem a ver com a maternidade e com minha carreira? No nosso desenvolvimento profissional estamos constantemente baseando nossas decisões a partir dessas necessidades, mesmo sem perceber. Num cenário ideal temos uma boa remuneração, fazendo o que gostamos e sabemos fazer, dentro de um ambiente de trabalho super agradável com pessoas queridas com as quais nos relacionamos muito bem, e sentimos que esse trabalho vai diretamente ao encontro do nosso propósito no mundo. Como eu escrevi, esse é um cenário ideal. Na grande maioria das vezes o salário é o principal critério na hora de buscar um trabalho remunerado, senão o único. Até por que sentimos que podemos atender as outras necessidades em outros pontos de contatos com o mundo. Podemos fazer o que gostamos e sabemos como hobby. Podemos ter relacionamentos que nos preencham com nossa família e grupos de amigos e podemos sentir que realizamos nossa “missão” por meio de um trabalho voluntário, nossa ação religiosa e etc. Dessa forma temos a questão financeira sendo nosso principal indicador de sucesso no desenvolvimento profissional - e por enquanto tudo bem. Mas aí entra o bebê na história...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quando os filhos chegam temos que lidar com uma “paradinha” profissional. E o medo está exatamente neste período – O que acontece quando o “mundo dá essa parada" e você desce um pouquinho dele para receber o seu bebê?  O que acontece quando nossas buscas e lutas diárias incessantes e muitas vezes insanas, são deixadas de lado por um período onde algo mais intenso chega aos nossos cuidados? Por que tantas mães parecem que surtam e mudam tudo depois que tem filhos? Está aí o pulo do gato!

 

Quando vemos uma situação de “fora” conseguimos ter mais consciência sobre ela, pois estamos dissociados. Não estamos no meio do furacão, estamos com nossas emoções desvinculadas dos fatos.  Ou seja, nos tornamos mães e entramos num mundo paralelo por algum tempo, pois a maternidade exige que nos vinculemos nesse binômio mãe/bebê. E assim nos desligamos do “mundo exterior” (do mundo profissional) e quando voltamos a olhar para ele nossos 4 níveis de necessidades surgem como filtros de novos pensamentos, mesmo sem percebermos. “Será que quando eu voltar quero ter exatamente o ritmo que tinha antes? Será que quero fazer exatamente o que fazia? Será que sou realmente feliz fazendo o que fiz e busquei até hoje? Será que estou colaborando para o mundo que vou deixar para meu filho? Será que vale a pena dedicar a maior parte do tempo da minha vida em busca de um maior salário? Será que faz sentido eu voltar  para este mundo exatamente como ele era quando eu parei? ”  Está aí a grande causadora dessas mudanças: novas perguntas.

 

O chamado

 

A maternidade é sim um grande chamado e com ele muitas coisas podem mudar, assim como tantos outros chamados. Somos convidadas a rever crenças, valores, nos conhecer melhor e até tomar novas decisões no desenvolvimento profissional. Podemos mudar de emprego, podemos apenas melhorar nosso ritmo, podemos nos tornar melhores negociadoras, melhores colegas de trabalho, podemos voltar com mais habilidades desenvolvidas, podemos largar tudo e abrir um novo negócio ou decidirmos ficar em casa e nos dedicarmos aos filhos. Não existe certo ou errado, tudo são escolhas.

 

Se essas mudanças nos farão pessoas melhores ou profissionais mais realizadas, só nós mesmas podemos definir. O convite é para fazermos essas escolhas de forma consciente, entendendo que a oportunidade está aí e podemos aproveitar de uma forma incrível, se quisermos!

 

Alcione Andrade - Coach de Performance e Carreira